“Quando vocês se desviarem para a direita ou para a esquerda, ouvirão atrás de vocês uma palavra, dizendo: “Este é o caminho; andem nele.” Isaías 30:21

Uma das maiores graças que o Senhor pode nos conceder nesta vida é a de sabermos claramente o caminho, a direção que nos conduz a Ele e contarmos com uma pessoa que nos ajude a sair dos nossos desvios e erros para retornarmos ao bom caminho.

Em muitos momentos da sua história, o povo de Deus achou-se sem rumo e sem caminho, num grande desconcerto e abatimento, por falta de verdadeiros guias. Jesus Cristo encontrou assim o seu povo: como ovelhas sem pastor conforme o Evangelho segundo Mateus 9:35,36:

“E Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino e curando todo tipo de doenças e enfermidades. Ao ver as multidões, Jesus se compadeceu delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.”

Os seus guias tinham-se comportado mais como lobos do que como verdadeiros pastores do rebanho.

Na longa espera do Antigo Testamento, os Profetas tinham anunciado com séculos de antecedência a chegada do Bom Pastor, o Messias, que guiaria, cuidaria amorosamente do seu rebanho. Seria o pastor único, que iria à busca da ovelha perdida, enfaixaria a que estivesse ferida e curaria a doente (cf Ez 34:16). Com Ele, as ovelhas estariam seguras e teriam, em seu nome, outros bons pastores que velariam por elas e as guiariam:

“Porei sobre elas pastores que as apascentem, e elas jamais terão medo, nem ficarão assustadas; nem uma delas faltará, diz o Senhor.” (cf Jr 23:4).

“Eu sou o bom pastor” (Jo 10:11), diz Jesus. Veio ao mundo para congregar o rebanho de Deus:

“Porque vocês estavam desgarrados como ovelhas; agora, porém, se converteram ao Pastor e Bispo da alma de vocês.” (cf 1Pe 2:25).

“Vem o Bom Pastor para recolher o seu rebanho do seu extravio” (cf Lc 15:3-7), para guiá-lo (cf Jo 10:4), para defendê-lo (cf Lc 12:32), para alimentá-lo (cf Mc 6:34), para julgá-lo (cf Mt 25:32), para conduzi-los por fim aos prados definitivos, junto às águas da vida (cf 1Pe 5:4; Ap 7:17).

Jesus é o Bom Pastor anunciado pelos Profetas. Nele cumprem ao pé da letra todas as profecias. Ele conhece e chama cada uma das ovelhas pelo seu nome (cf Jo 10:3). Jesus conhece-nos pessoalmente, chama-nos, busca-nos, cura-nos! Não nos sentimos perdidos e sem nome no meio de uma humanidade imensa. Somos únicos para Ele. Podemos dizer com toda a exatidão: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2:20), Ele distingue a minha voz entre muitas outras. Nenhum cristão em sã consciência tem o direito de dizer que está só. Jesus Cristo está com ele e se se perdeu pelos caminhos do mal, o Bom Pastor já saiu à sua busca. Só a má vontade da ovelha, o não querer ingressar ao aprisco, pode fazer fracassar a solicitude do Pastor. Só isso.

Além do título de Bom Pastor, Cristo aplica a si mesmo a imagem de porta pela qual se entra no aprisco de ovelhas que é a Igreja. A Igreja “é um redil cuja porta única e necessária é Cristo. É também um povo da qual o próprio Deus profetizou ser Pastor, e cujas ovelhas, ainda que conduzidas certamente por pastores humanos, são, não obstante, guiadas e alimentadas continuamente pelo próprio Cristo, Bom Pastor e Príncipe dos pastores, que deu a vida pelas suas ovelhas.

Cada cristão deve ser um bom pastor dos seus irmãos, especialmente por meio da correção fraterna, do exemplo e da oração. Pensemos com frequência que, de alguma forma, todos nós somos bons pastores das pessoas que Deus pôs ao nosso lado. Temos obrigação de ajudá-las a percorrer o caminho da santidade e a perseverar na correspondência aos dons e chamados do Bom Pastor que nos conduz aos pastos da vida eterna.

O ofício do bom pastor é extremamente delicado; exige muito amor e muita paciência (Is 40:11; Ez 34:4), valentia (1Sm 25:7; Is 31:4; Am 3:12), competência (Pv 27:23), bem como prontidão de ânimo (1Pe 5:2) e um grande sentido de responsabilidade (Mt 18:12). O descuido no fiel cumprimento desta missão ocasionaria danos ao povo de Deus (Is 13:14,15; Jr 50:6-8). O mau pastor leva à morte até as ovelhas robustas.

Quatro são as condições que deve preencher o bom pastor. Em primeiro lugar, o amor; a compaixão, a generosidade, e a solidariedade compõe a única virtude que o Senhor exigiu de Pedro para lhe entregar o cuidado do seu rebanho. Depois, a vigilância, para estar atento às necessidades das ovelhas. Em terceiro lugar a doutrina, para que possa alimentar os homens até levá-los à salvação. E, finalmente a santidade e integridade de vida; esta é uma qualidade fundamental.

Cada um de nós necessita de um bom pastor que guie a sua alma, pois ninguém pode orientar-se a si próprio, a menos que tenha uma ajuda especial de Deus. A falta de objetividade, a preguiça e a paixão com que nos vemos a nós mesmos vão obscurecendo o nosso caminho para o Senhor. E sobrevêm então o estancamento espiritual, a tibieza (desânimo, indiferença, frouxidão). Pelo contrário, “assim como uma nau que tem um bom timoneiro chega sem perigo ao porto, assim também a alma que tem um bom pastor alcança-o facilmente, ainda que tenha cometido muitos erros.

O discipulado é necessário para que não tenha que dizer no fim da nossa vida o mesmo que diziam os judeus depois de vagarem a esmo pelo deserto: Durante quarenta anos demos voltas em torno da montanha (Dt 2:1). Fomos vivendo sem saber para onde íamos, sem que o trabalho ou o estudo nos aproximassem de Deus, sem que a amizade, a família, a saúde e a doença, os êxitos e os fracassos nos ajudassem a dar um passo em frente naquilo que é verdadeiramente importante: a santidade, a semelhança com Cristo, a salvação e amadurecimento. Fomos vivendo sem rumo, entretidos com meia dúzia de coisas passageiras. E tudo isso, porque nos faltaram umas metas sobrenaturais pelas quais lutar, um caminho claro e um guia.

Pode, pois, ser necessário confiar a alguém a direção da nossa alma, porque todos carecemos de uma palavra de alento, sobretudo quando desanimamos pelas derrotas do nosso caminhar com Deus. Necessitamos então de uma voz amiga que nos diga: “Vamos lá, não deve parar porque tens a graça de Deus para vencer qualquer dificuldade!” Nos diz o Espírito Santo: Se alguém cai, o outro levanta, mas ai daquele que está só, porque, quando cai, não tem quem o levante (Ec 4:10). E com essa ajuda nos recompomos por dentro e conseguimos forças quando já nos parecia que não nos restava nenhuma.

É uma graça especial de Deus podermos contar com essa pessoa amiga a quem podemos abrir a alma numa confidência cheia de sentido humano e sobrenatural. Que alegria podermos comunicar o mais íntimo dos nossos sentimentos – a fim de orientá-los para Deus – a alguém que nos compreende, nos estima, nos abre horizontes novos, nos estimula, ora por nós e tem uma graça especial de Deus para nos ajudar!

Mas é importante recorrer a quem é realmente bom pastor para nós, a que o Senhor quer verdadeiramente que recorramos. São Lucas conta-nos como o filho pródigo sentiu a necessidade de descarregar o peso que esmagava sua alma. Também Judas se sentiu esmagado pelo peso da sua traição. O primeiro, porém, dirigiu-se àquele a quem devia dirigir-se e alcançou uma paz que nem sequer poderia imaginar; reconstituiu a sua vida. Ao passo que Judas não. Judas devia ter voltado para Jesus, e apesar do seu pecado, teria sido acolhido e confortado, tal como Pedro. Mas procurou aqueles que não devia, aqueles que eram incapazes de compreendê-lo e, sobretudo, de lhe dar aquilo de que necessitava. Que nos importa? Isso é com você (Mt 27:4), foi o que lhe disseram.

No discipulado, encontramos o bom pastor que nos dá ajudas necessárias para não nos perdermos e para recuperarmos o rumo, caso nos tenhamos desorientado no nosso caminho para Cristo.